terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Não é amor



Pela brecha da janela, acompanhamos a madrugada virar dia. Será que se a gente ficasse dez mil anos juntos, a gente ainda ia se gostar o suficiente pra continuar assim, conversando durante 5 horas depois de uma noite inteira de sexo, pizza e filmes? A gente quase nunca termina as pizzas e os filmes. Não é amor. Entre nós dois não tem amor. É outra coisa. É simples: duas noites consecutivas e depois nada. Eu preciso degustar devagar, você sabe como eu sou. E ainda tem os cheiros. Os toques. Os arrepios. O chuveiro quente. Confesso que eu não sei pensar sobre nós, eu mal sei quem você é. O que eu sei é que manter a minha boca longe do teu corpo é mais difícil que três dias sem comer. Sei também que o jeito que você me beija os olhos é de uma covardia sem precedentes. Você nunca percebeu como eu me encaixo bem entre o seu corpo e o seu ombro, mas você precisa reparar. Você devia se enrolar num papel de presente e ir parar no meu correio. Pensando bem, isso jamais daria certo, porque não é amor. Gosto de você não ter se acostumado ainda com o fato de eu te encarar descaradamente de meia em meia hora. Os dias parecem horas na sua suíte bagunçada e eu queria ficar mais um pouco, ou tanto faz, eu tenho netflix em casa e lá sempre tem alguma coisa boa pra assistir. Mal o meu cabelo seca e eu visto a roupa pela primeira vez em 20 horas. Você fala o meu nome inteiro por algum motivo irritante; olha o relógio do celular e diz que eu não vou acreditar em quantas horas já se passaram desde que a gente almoçou. Eu sorrio e depois me enfezo ao pensar por que porra toda vez que eu me descuido um pouquinho eu apareço aqui e saio dois dias depois? Essa é a hora que eu começo a achar a minha pele quente demais pra sua lábia fria. Vivemos aproximadamente uns 50 momentos bons, mas nem precisa abrir a porta, eu sei bem o caminho. Sigo o corredor, última a direita. Não me despeço de nada. Eu gosto da cor dos lençóis. Dos copos sujos. Da janela entreaberta do quarto durante o dia. As camisetas no chão do banheiro. A bicicleta intacta na parede da sala. A porta dos fundos trancada por dentro. Mas sempre tem algum detalhe aqui e ali, como um lenço, um brinco, uma mancha de batom, morango com leite condensado e suco de saquinhos que você não gosta, pra me lembrar que existem outras mulheres por ali. Parece ciúmes, mas eu não quero mesmo ser nada sua, como eu poderia? Você nem lava a própria louça. Você nem imagina quantas vezes eu já sentei nesse banco feio dessa praça feia que separa a minha rua da sua pra chorar, mas só um pouquinho. Tem dias que a dor não cabe só no estômago e vai parar no duodeno. Você tem que acreditar que eu lidava bem com essas coisas antes de te conhecer, embora eu acredite mesmo que não seja amor. Eu não quero amor. Eu quero nossos almoços assistindo desenho; você lendo National Geographic do meu lado na cama; eu lendo a Piauí enquanto você joga  a madrugada inteira (e eu amo muito simplesmente estar ali). Gosto dos nossos passeios de moto depois da meia noite; do nosso sexo desmedido em quase todos os cômodos da minha casa e da sua; dos seus gatos na janela do quarto às 4 horas da manhã; dos meus vários pretextos criativos (outros nem tanto) pra te ver. E tem também a minha mão nas falhas da tua barba; a tua blusa de caveira; minhas brigas pra te fazer comer e dormir direito; sua pele crua e tua boca bonita; nossas 30 horas juntas que eu nunca vejo passar. Você fica lendo aquele livro sobre RPG de vampiros em voz alta enquanto eu mal obtenho sucesso ao tentar desfocar a minha atenção do seu corpo. Gosto das suas histórias, das suas piadas, das suas fotografias, da sua inteligência, do seu sarcasmo, das coisas que você me conta e que eu não sabia e das que eu finjo não saber só pra te ouvir falar com o sotaque mais lindo que eu consigo me lembrar. Mas se tudo o que eu quisesse fosse amor, eu não estaria aqui, eu estaria com a outra meia dúzia de pessoas que me amariam amanhã na hora que eu quisesse, em ponto. Eu sei que se eu quisesse amor eu não encontraria em você. Mas enquanto eu me sentir como se o mundo pudesse explodir do lado de fora da porta do seu quarto, eu vou continuar aqui.


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Predileção

As pessoas estão, logo ao lado, sendo lindas fontes de inspiração poética. As pessoas dizem "eu amo você" no terceiro encontro. Elas pensam em se casar, ter filhos, um carro família e dois cachorros. Elas pensam em se mudar pra um canto bem longe só pra ficar perto de alguém, mesmo estando perto de 300 mil outras pessoas que elas não fazem questão de conhecer.  As pessoas estão, logo ali, sendo algozes de infinitos corações partidos. Então, as pessoas desamam no vigésimo encontro porque tiveram um dia ruim. Elas terminam o casamento, brigam pra decidir o valor da pensão dos filhos e sobre quem vai ficar com o carro velho da família. Os cachorros, sabe como é, ficam com quem tiver a varanda do apartamento maior. As pessoas pensam em se mudar pra longe só pra ficar distante de alguém que se amou, mesmo que, por consequência, acabe ficando distante de todas as outras coisas que deveria se amar também. As pessoas estão, na rua da frente, na casa do lado, na praça do bairro, mudando de ideia. Enlouquecidamente. O tempo inteiro. Elas eram assim mil anos atrás e serão assim dez mil anos à frente. Agora veja, por que a inconstante haveria de ser eu, só porque, ora odeio as falhas da sua barba, ora te amo inteiro?

domingo, 8 de setembro de 2013

Domingo a sós.

Ontem eu te vi passando e você parecia feliz. De algum jeito, sua felicidade não combina mais com a minha.



Pra Seu Ninguém.

Se ele não liga
Grande coisa
Vou revirar minha bolsa
Atrás do meu batom fumê.

E se, sei lá, ele demora
Faço uma imensa lista
De lugares nessa vida
Que ainda hei de conhecer.

Mas se ele não vem
Fica mais fácil.
Pego o radinho portátil
E vou ouvir com outro alguém.

E quando ele vai embora
Nenhum pesar nisso tem,
Saio de casa em meia hora
E vou sofrer por quem convém.








sexta-feira, 6 de setembro de 2013

01

Eu te fumo
Te engulo
E a ti sussurro
Qualquer absurdo
Que já em desuso
Se escreveu no muro
De alguns cabarés.

Eu te juro
Um futuro
Mentindo seguro.
Mas, tu, mais maduro
Me chama de puto
Renega meu culto
Jogado aos seus pés.

Acreditas que apuro
Sentimentos ocultos
Ainda confusos
Guardados no escuro
Do teu lado turvo,
Que riu de um burbúrio
Escrito nos rodapés?





quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Dois cafés expressos médios

"Sou um homem com dois trabalhos e moro nessa cidade do trânsito desgraçado, para de me olhar com essa cara de merda só porque ficou me esperando 10 minutinhos" - foi o que ele disse quando me viu do lado de fora da cafeteria após uma hora e meia de atraso. Já fazia 5 anos. Talvez eu tenha rido ou balançado a cabeça em desaprovação. Só me recordo agora de ter pensado na minha mãe. E no quanto que eu entendo ela ter largado ele antes de eu falar a primeira palavra. Sentamos longe da porta de entrada. Ele foi na frente. Estava mais magro e com as mesmas olheiras. A arrogância no olhar. As palavras estúpidas na boca e a ignorância no corpo inteiro. Antes que eu me acomodasse na cadeira, ele pediu pro garçom quase sorrindo "dois cafés expressos médios com pouco leite, faz favor" e quase sem separar uma oração da outra, ainda olhando pra outro canto qualquer, voltando a expressão séria que lhe é de costume, meio que sussurrou "me diz algo que mudou sobre você e que eu precise saber." ... "Fala logo, criança, perdeu a língua no aeroporto? Eu não tenho a noite toda". Me dei conta que eu ainda não tinha sequer titubeado qualquer som. Ele ainda me assustava. O fato dele nunca rir sempre fez qualquer conversa parecer uma discussão grave. Há 5 anos Obama nem era o presidente dos Estados Unidos, nem tinha sido aprovada a lei antifumo, Michael Jackson estava em turnê e a Libertadores ainda era só um sonho para os corinthianos. Imagina quantas vezes eu mudei nesse tempo todo? Eu perdi o emprego três vezes e hoje eu ganho pouco mais que dois salários pra trabalhar 10 horas por dia. Eu não tenho mais medo de avião. Deixei de ouvir rock pra ouvir bossas novas tristes. Sou bem menos organizado que naquela época. Meu colesterol está alto e faz muito tempo que eu não leio um bom livro. Eu tinha muita alegria em estar vivo, mas agora passou. Eu bebo e fumo muito todos os dias. Acabo dormindo na sala. Meu quarto tem cheiro de mofo. No trabalho ninguém sabe que eu sou triste. Na família ninguém sabe que eu gay. Já faz alguns anos. Bissexual não. Gay mesmo. Já apanhei num bar lá na Penha por ser assim. A Ana Raquel engravidou quando a gente ainda namorava, mas ela abortou. Ela me odeia agora. Eu namorei 3 meses o primo dela quando a gente deu um tempo pela segunda vez. Nada de festas. Ou viagens. Desde que eu fui embora, eu nunca mais surfei, nem joguei futebol. Ligo muito pouco pra minha mãe. Meu chefe não me dá férias há 3 anos. Trabalho em casa nos feriados porque eu sempre atraso as avaliações semestrais da empresa. Estou há 7 meses sem sexo e há 29 anos sem amor. Fiz alguma pergunta retórica pra ganhar mais tempo nos meus devaneios tolos, mas continuávamos frente a frente, quase mudos. O garçom posicionou os nossos cafés à  direita enquanto eu fiquei com muita raiva de não ter pedido nem a porcaria da minha bebida. Mas a minha passividade no trabalho, na família e no sexo poderiam me irritar por cem anos que eu ia continuar com essa cara de quem comeu e não sabe se gostou. Depois de alguns segundos olhando pra xícara de porcelana branca, eu respirei como quem inalasse metade do oxigênio da terra e falei pausadamente a única coisa que ele precisaria saber antes que eu enlouquecesse pela milésima vez. Enchi o peito, consertei a coluna e assumi. "Pai, eu não gosto mais de café." Deixei uma nota de 10 reais embaixo do pires. Saí depressa. Alguns minutos depois me arrependi por nem sequer ter virado as costas e olhado pra ele pela última vez. Me dei conta da metáfora infeliz que é essa coisa de "seguir em frente sem olhar pra trás", mas não chorei. Nunca mais nos vimos.