Pela brecha da
janela, acompanhamos a madrugada virar dia. Será que se a gente ficasse dez mil
anos juntos, a gente ainda ia se gostar o suficiente pra continuar assim,
conversando durante 5 horas depois de uma noite inteira de sexo, pizza e
filmes? A gente quase nunca termina as pizzas e os filmes. Não é amor. Entre
nós dois não tem amor. É outra coisa. É simples: duas noites consecutivas e
depois nada. Eu preciso degustar devagar, você sabe como eu sou. E ainda tem os
cheiros. Os toques. Os arrepios. O chuveiro quente. Confesso que eu não sei
pensar sobre nós, eu mal sei quem você é. O que eu sei é que manter a minha
boca longe do teu corpo é mais difícil que três dias sem comer. Sei também que
o jeito que você me beija os olhos é de uma covardia sem precedentes. Você
nunca percebeu como eu me encaixo bem entre o seu corpo e o seu ombro, mas você
precisa reparar. Você devia se enrolar num papel de presente e ir parar no meu
correio. Pensando bem, isso jamais daria certo, porque não é amor. Gosto de
você não ter se acostumado ainda com o fato de eu te encarar descaradamente de
meia em meia hora. Os dias parecem horas na sua suíte bagunçada e eu queria
ficar mais um pouco, ou tanto faz, eu tenho netflix em casa e lá sempre tem
alguma coisa boa pra assistir. Mal o meu cabelo seca e eu visto a roupa pela
primeira vez em 20 horas. Você fala o meu nome inteiro por algum motivo
irritante; olha o relógio do celular e diz que eu não vou acreditar em quantas
horas já se passaram desde que a gente almoçou. Eu sorrio e depois me enfezo ao
pensar por que porra toda vez que eu me descuido um pouquinho eu apareço aqui e
saio dois dias depois? Essa é a hora que eu começo a achar a minha pele quente
demais pra sua lábia fria. Vivemos aproximadamente uns 50 momentos bons, mas
nem precisa abrir a porta, eu sei bem o caminho. Sigo o corredor, última a
direita. Não me despeço de nada. Eu gosto da cor dos lençóis. Dos copos sujos.
Da janela entreaberta do quarto durante o dia. As camisetas no chão do
banheiro. A bicicleta intacta na parede da sala. A porta dos fundos trancada
por dentro. Mas sempre tem algum detalhe aqui e ali, como um lenço, um brinco,
uma mancha de batom, morango com leite condensado e suco de saquinhos que você
não gosta, pra me lembrar que existem outras mulheres por ali. Parece ciúmes,
mas eu não quero mesmo ser nada sua, como eu poderia? Você nem lava a própria
louça. Você nem imagina quantas vezes eu já sentei nesse banco feio dessa praça
feia que separa a minha rua da sua pra chorar, mas só um pouquinho. Tem dias
que a dor não cabe só no estômago e vai parar no duodeno. Você tem que
acreditar que eu lidava bem com essas coisas antes de te conhecer, embora eu
acredite mesmo que não seja amor. Eu não quero amor. Eu quero nossos almoços
assistindo desenho; você lendo National Geographic do meu lado na cama; eu
lendo a Piauí enquanto você joga a
madrugada inteira (e eu amo muito simplesmente estar ali). Gosto dos nossos
passeios de moto depois da meia noite; do nosso sexo desmedido em quase todos
os cômodos da minha casa e da sua; dos seus gatos na janela do quarto às 4
horas da manhã; dos meus vários pretextos criativos (outros nem tanto) pra te
ver. E tem também a minha mão nas falhas da tua barba; a tua blusa de caveira;
minhas brigas pra te fazer comer e dormir direito; sua pele crua e tua boca
bonita; nossas 30 horas juntas que eu nunca vejo passar. Você fica lendo aquele
livro sobre RPG de vampiros em voz alta enquanto eu mal obtenho sucesso ao
tentar desfocar a minha atenção do seu corpo. Gosto das suas histórias, das
suas piadas, das suas fotografias, da sua inteligência, do seu sarcasmo, das
coisas que você me conta e que eu não sabia e das que eu finjo não saber só pra
te ouvir falar com o sotaque mais lindo que eu consigo me lembrar. Mas se tudo
o que eu quisesse fosse amor, eu não estaria aqui, eu estaria com a outra meia
dúzia de pessoas que me amariam amanhã na hora que eu quisesse, em ponto. Eu
sei que se eu quisesse amor eu não encontraria em você. Mas enquanto eu me
sentir como se o mundo pudesse explodir do lado de fora da porta do seu quarto,
eu vou continuar aqui.
Nenhum comentário:
Postar um comentário